Viver é um círculo vicioso

Eu escrevo este texto ao som de Vivaldi, algo tão calmo para ir em contrapartida e  falar de coisas que me perturbam sempre. Vi hoje um comentário no Facebook de uma amiga dizendo pra outra: “amiga, o tempo não passou pra você.” Achei interessante essa proposição dela. Veja que esplêndido seria se o tempo congelasse e ficássemos para sempre como nós somos. Talvez isso não desse tão certo. Na China e na Índia, países com as maiores população do globo, não daria tão certo. Acho que é por isso que vivemos tão pouco, ou, com a qualidade de vida que todos temos hoje, no máximo cem anos. Não é ser pobre ou rico que vai decidir quem vai primeiro pra geladeira. A morte chega igual pra todos.

Deus – foi ele mesmo? – não foi besta  pra deixar a gente livre pra viver quanto tempo quisesse. Evangélicos costumam colocar, quando alguém se vai, toda a culpa Nele, sim, eles cospem assim quando alguém morre: “da mesma forma que Ele deu, Ele tira”. Concordo. Da mesma forma que viver é humano, morrer também é. Faz parte do currículo. Só não nos acostumamos – ainda – com a ideia porque ela é muito dolorosa e porque ninguém relatou ainda como é. Que tal ir morrendo e ir escrevendo um relatório dizendo como é? É uma ideia até interessante. Mas viver é isso, insisto, morrer aos pouquinhos. Isso de querer saber como é lá, só se pode descobrir quando se chega lá.  Vamos pular o muro para chegar do outro lado. Existe o outro lado? Pule! Na dúvida quem sabe.

De que eu estava falando? Sim, de viver pra sempre. Será que seria interessante? E os suicidas? Eles que saiam da frente – ou fiquem mesmo. Para os suicidas fica a dica: fiquem sentado nos trilhos. Não é justo que por um, todos paguem. Tanto cursinho, tanta demanda e ficar tomando os remédios da avó que sofre de Parkinson para tentar – às vezes fica vivo – morrer.  Vai assistir na Globo, aos domingos, Faustão e ver Raul Gil cantar, aos sábados, no programa dele.  Faço questão de informar a grade de programação televisiva brasileira pra você, mas não se mate. Viva, viva! Não falo de todos. Há outros telespectadores que fazem maior Ibope.

Mas sei que ainda existe pessoas apaixonadérrimas pela vida. Mulheres que caminham cedo no parque; mulheres que não tiram o pé do shopping. Mulheres que não param de pular com o marido no colchão. Mulheres que amam os filhos. Velhinhas que gostam de agradar os netinhos com mimos.  Deve haver também homens que amam isso de viver. Homens que amam a mulher – ou a bunda dela –  que tem. Homens que gostam de estar no poder, que gostam de ter quem espancar. É, não daria tão certo. Viver é um círculo vicioso.

Às vezes não ficam na cara as marcas da vida. As rugas, como a menstruação da filha do vizinho, não tarda. O tempo tem que passar. Tudo tem que passar. Viver para sempre é tão impossível como o “duradouro” dito na embalagem de algum produto. Nada dura pra sempre. Morrer é fundamental. Para a amiga facebookiana eu diria: “amiga, como você continua a mesma. Muita plástica?”. Só não venha dizer que o tempo não passou.

JOÃO GOMES
 22.06.12 (13:04 )

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3 thoughts on “Viver é um círculo vicioso

  1. Muito boa a ideia do texto… Muito engraçado mesmo esta nostalgia de nos viciarmos por tão pouco… Parabéns, também, pensei assim dia desses… E até falei pros meus alunos, meros alunos de 8 a 12 anos, será mesmo que terá sido uma solução, dizer-lhes que estavam viciados, quando a todo o tempo só brincam, batem uns nos outros, e etc… Acho que não, pois, uma semana depois ao nos reencontrarmos para mais uma aula, toda a situação se repetiu, só não a constatação do vicio. É bem interessante esta compreensão de vicio, quando estamos vivendo constantes momentos viciosos… Mas, até que eu os entendo, brincar realmente é o máximo. Mas, quem serão os futuros pais de amanhã, ou simplesmente o cidadão de amanhã, se eles continuarem a brincar pelo resto dos tempos. É isso o que me preocupa…

  2. Ouvi ou li certa vez, não sei: “Viver é opcional, mas morrer é inevitável.”
    É, morrer faz parte da vida, é algo que se não acontecesse, nunca teríamos a certeza de termos vivido. Porém, quando esse dia chegar, o dia da minha morte, quero ter a certeza de que todas essas coisas que um dia tiveram importância pra mim e que hoje já perderam seu significado, fizeram parte da minha vida, me ajudaram a crescer, a escrever minha história, e não quero me arrepender de nada.

    Uma vez mais, parabéns pelo post! 🙂

  3. Tem bate papo por aqui que são para mim belos aprendizados….

    Ontem conversava com um amigo meu sobre escrita e sobre a necessidade de labutar mais a minha escrita que no momento, ainda se encontra como que uma revelação do que sou. DE certo não posso dizer que escrever é um processo de ‘respingos da gente’, porém há momentos em que precisamos ter um foco mais global, mas amplo.
    Aí eis que ao abrir o viciante face encontro João Gomes, a quem chamo de menino índigo, pois a cada dia vejo que ele é um visionário. Estou nesse instante, vivenciando com ele o prazer de participar de um projeto que já vem mexendo com minha vida e também me fazendo refletir sobre as questões que disse acima, em relação a e escrita.
    Nesse mesmo momento lembro-me de Cida Pedrosa em recente programa de televisão, que me perdoe eu não me recordo, porque quando a mesma falou eu acabava de chegar e peguei justo a parte em que ela dizia, em outras palavras, que o processo da escrita era trabalhoso.
    Voltando ao dialogo com João ele me mostra mais uma de suas sagacidades, textos dele em um blog que ele me diz ser mais um desabafo, fui lá e li criticamente e disse:
    João diria que são belos, sem serem melodramáticos, melosos, e mais contundentes e eloquentes. Quem ler se identifica de algum modo, tem apuro nas sequencias, tem logicidade. Você já labuta sua palavra. Ele me responde com seu haicai que daria um livro:
    ‘diria que escrever é como carpintaria’!!!!
    Vejo que sim e retomo ao que Cida Pedrosa disse sobre o trabalho muito cansativo Às vezes com as palavras. Eu ando buscando dar esse tom aos meus textos atualmente, não diria buscando, mas sentindo a necessidade de ao menos verticalizar outra linda de escrita onde eu não me contasse tanto. Sei será uma longa e árdua luta, rsrsr porque a escrita para mim é uma velha amiga da aquela xingo, deleito, erotizo…enfim me digo! São fases como a lua diria Clarice, a Lispector.
    A ponte: minha necessidade de tons mais universais, João Gomes e sua escrita eloquente, objetiva e nem por isso menos sagaz, Cida Pedrosa e o labutar das palavras: puxo as mangas e começo agora a trabalhar mais as palavras, quanto a mim não sei se procuro analista? Caminho na praia? e leio João Gomes despido todo em palavras e avoado como piolho” Rsrsrsr…. (ALMEIDA, Virgínia)

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