Esperando pelo garoto de programa

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Abraços, surubas e vaidades

todos me amam e eu não amo ninguém. não é todo dia que estamos bem, entende, mas as pessoas não se dão conta disso. todos querem atenção, olhares, abraços. fujo de tudo isso. por pura escolha me escondo em becos e entro em lojas só para não dar um abraço. não gosto de abraços. abraços e beijinhos só ficam bem no final de uma carta, de um texto. ambos juntos, quando no final de qualquer texto, só tem a função de enganar e reforçar a coisa, a solicitação e a prosaica mentira contundente da dissertação. é estratégia pura, e eu sempre uso. principalmente nas cartinhas que escrevo à minha avó. muitos, muitos mesmo até, se emocionam com eles no final do texto. vovó mesmo nem se fala, a iludida. é muito difícil algo me comover. a arte tem que ser muito boa para que ocorra o abalo, para que estremeça as minhas estruturas e eu me cague. é, sou difícil para me comover, mas quando me comovo me cago todo de tanto susto e terror. minha pele então fica toda arrepiada. não dou beijos e não deixo ninguém beijar minhas espinhas, tudo para mim tem que ser de igual para igual, entende? e, só para fazer de difícil, o único abraço que consigo dá é o de tamanduá. é, aquele de amizade fingida e deslealdade. e quantos não dão somente esse? é, a lista não pára. eu só vivo para mim e por mim. não gosto de multidão, com exceção, é claro, da surubinha que eu participo aos sábados na casa de um amigo. posso ser assim chato em abraçar, mas eu gosto de dividir. suruba só funciona entre pessoas de mão aberta, entende? e é claro que pessoas de orifícios bem arreganhados, só frisando. normalmente, nesses momentos de multidão, eu deixo entrar de dois em dois pelas portas dos fundos. é difícil controlar a fila, mas que posso fazer se apenas tenho um caixa de atendimento para todos? ah, sabe outra coisa que também me irrita muito, depois dos beijinhos de vento e os abraços que não prendem? é a tal da vaidade. a vaidade de fato exclui permanentemente o olhar do outro. ficamos ousados pra cacete, querendo ouvir só o que nos agrada. porra, de verdade, pessoas vaidosas me enchem até demais o saco, o meu pequeno saco. as coisas devem ser ditas por livre e espontânea vontade, quando é assim passa a ter mais graça. viver para o outro já é íntegro do ser humano, mas ficar toda hora e todo instante questionando a beleza dos cabelos e das roupas que veste é de lascar a vitrine do shopping. não sou vaidoso e por mim morreria nu, assim como vim.

JOÃO GOMES.
(entenda que pus um pouco de ficção neste texto)

Quase diário | 28.11.12

Querido diário,

Hoje fui, mesmo sem já aguentar, à escola. Final do ano vai chegando e a gente vai perdendo as forças, vai brochando o pinto tão duro no primeiro dia de aula. Só vou porque tenho que tentar me recuperar (em vão) em matemática, física e química. Fora isso, eu não iria. Logo eu, tão passivo, tão preguiçoso na hora de usar o pau. Mas fui, e gozei.

Na escola, com os infindáveis cincos dias sem ver os amigos, chego e todos gritam o ‘biba!’ de sempre. É, os mais íntimos me chamam assim. Brinco com eles que meu nome é Biba e não Boba, tudo só pra descontrair a ociosidade do dia. Gosto muito dos meus amigos da escola, pelo menos o grupinho que eu convivo mais tempo nas dez horas que passo naquela prisão. Luana, Elivelton, Yasmim, Letícia e Ana Karolina formam comigo a turma da baderna lá na escola. É nas nossas descontraídas conversas que eu aguço o meu dom poético e patético chegando aos microcontos que preenchem a minha literatura.

Na escola hoje fomos ao Cinema São Luiz, no projeto Cine Cabeça. Assim quando a gente chegou num dos mais antigos cinemas do Brasil (?) os arte educadores, como tinha que ser, começaram a proposta pedagógica do projeto: ‘mostre o seu talento’, ‘gentileza gera gentileza’ e outros do tipo. Confesso que só compareço aquilo por conta da ideia de mostrar filmes um pouco interessante, logo eu que não curto pegar cinema. Mas nessas horas topo ir, mas não é para matar, como muitos na escola fazem, aula. Vou porque gosto de assistir os filmes e de paquerar o pessoal da equipe.

Nesta quarta e última sessão, na ida ao Cine com a escola, me decepcionei em peso. Achei péssima a seleção de filmes escolhidos para mostrarem pra gente, que na verdade foram seis curtas-metragens. Acho que tudo na vida depende da nossa opinião e é impossível gostar de tudo. Então, não gostei de nenhum dos filminhos que exibiram, onde o roteiro era sempre sobre pessoas nordestinas e a condição social de fulanos e fulanas que vivem no sertão, coisa bem documentária. Para ser sincero não gosto desses tipos de amostras na sétima arte. Quando é a poesia de João Cabral ou, mesmo sem ter lido muito, a prosa de Graciliano Ramos, até vai. Mas não, não gostei de nenhum dos filmes e tive que fazer de tudo um pouco no escurinho do cinema, menos olhar pra tela.

O ruim de ir nesses projetos com a escola é que a gente tem que obrigatoriamente continuar sentado, fingindo comportamento e escondendo nossas origens. Não suporto fingir, gosto de sorrir com meus dentes e comer com a minha boca. A verdade é que, se eu pudesse, teria saído para comprar pipoca pra nunca mais voltar. Mas passou, como sempre passa, o tempo. Na mesma burocracia para chegar tornamos, num ônibus velho de rodoviária, à prisão onde nossos pais nos obrigam a permanência.

Já na escola-prisão almocei uma refeição até melhor que nos dias anteriores e fui para a biblioteca, tentar fazer uma postagem no blog ao qual eu colaboro, o Blog das 30 Pessoas. Com a previsível  WIFI da escola, que pega até carregar a página do Google, tento, em vão, na busca pesquisar por ‘blogger’ para começar a edição da minha mensal colaboração no blog citado. Desisto, por não funcionar na velocidade que eu quero, de tentar. Mesmo assim, ainda tem os mais pacientes, que continuam sentados nos computadores da biblioteca da escola na tentativa sempre primeira de fazer aquela pesquisa que o professor cobra sem nem querer saber da dificuldade que foi chegar àquela impressão onde ele, sem nem olhar, só dá um visto.

Fica até parecendo que eu sou aquelas velhinhas que a única coisa que sabe fazer na vida é reclamar. Não, também não sou assim. Mas o dia de hoje foi de lascar, só aborrecimento. Para fuder a tabaca de Xôla, às 15h na escola, não serviram o lanche. Só tinham para servir suco e todos, já revoltados, foram brigar e argumentar pelo complemento (bolinhos, biscoitinhos Maria e genéricos) que não veio. Então, como não tinha este maldito complemento, todos foram liberados e livrados das duas últimas aulas do dia. Agradeci muitíssimo ao Altíssimo por tal decisão, só assim consegui me livrar da chatíssima aula de robótica.

Feliz da vida, passo pelos portões da escola, pego um ônibus e vou para um lugar onde de fato me sinto bem. Fim do meu dia (até às 17h).

Quase diário | 27.11.12

Querido diário,

Hoje meu dia não foi muito diferente dos outros. Acordei às 09h e preferi, como sempre, não tomar café. Gosto de passar a manhã toda em jejum, mas não faço promessa e não intercedo por ninguém e não creio em nada. Não acredito em mim e não tenho meta e não subo, de joelhos, morro.  Graças a Deus sou ateu (brinco, mas de fato não sei).

Assim que me levantei da cama, fui ver, no antigo relógio de parede, a hora. Uma gostosa hora de se acordar. Tinha ido dormir tarde na noite passada e fique feliz por ter dormido as recomendadas oito horas, coisa que nunca cumpro. Pus os chinelos e fui fazer minhas necessidades (x1). Assim que cheguei no vaso e pus pra fora meu pinto percebi, como matinalmente sempre ocorre, que ele estava ereto por conta do mijo. Urinei suave, sem fazer muita força e barulho e voltei para o quarto pensando na sensação que uma mulher nunca vai ter de sentir um negócio pendurado balançando entre as pernas. Escovei os dentes com minha escova de cerdas já quase careca e espremi algumas espinhas ainda verdes e tomei um banho rápido banho e fui arrumar minha bolsa para sair. Sair para qualquer lugar, sair para aproveitar o dia, o dia que se deu sem aula.

Arrumei minha simples bolsa bem feminina e de ombro, souvenir de divulgação do banco Itaú dado na Fliporto deste ano, e fui para a parada de ônibus. Bem que eu poderia ir andando, mas não, tinha que gastar a passagem só porque não tinha ido à escola. É este o meu consumo consciente, apesar de achá-lo bem louco. Só porque não gastou hoje que amanhã já fica certo gastar o dobro, ou seja, gastar hoje por hoje e por ontem. Sou assim e assim continuarei sendo sempre.

Entro no ônibus. Estrategicamente procuro me sentar no lado que não bata sol e abro um livro de crônicas de Arnaldo Jabor. Começo a ler uma crônica e fico rindo alto, mesmo com todos me observando com desagradáveis olhares. Poucas são as pessoas que se sentem bem com a felicidade alheia. Não ligo e continuo rindo até me lembrar de outro grande cronista nosso, o Verissimo, que, pelo que venho acompanhando, está super mal de saúde.

Chego à biblioteca do SESC Santa Rita e passo todo o dia online no Facebook, leio algumas revistas e depois começo a esboçar um conto que não deu certo. Logo em seguida assisto, quando vejo que o feed de notícias não está assim tão interessante, uma das edições do programa ‘Sem vergonha’, transmitido pela MTV que é a única emissora que assisto, onde a convidada é a Ariadna, aquela transexual que passou pelo BBB. Rio, rio bastante com as confissões dela e começo a enxergar um quê de inteligência nela na hora de falar em sexo e coisas genéricas do tipo. Apesar de sua arranhada voz de homem igual a mim, sinto um misto de satisfação por sua determinação e coragem de querer e se fazer assim, realizando o sonho de ser outra pessoa, coisa que eu muito queria fazer se tivesse capital.

Depois de passar todo o dia no Sesc, rindo e conversando com amigos, chego em casa e resolvo começar a leitura de um romance da carioca Elvira Vigna, ‘Nada a dizer’, e depois ouço um pouco de música ambiente misturado com jazz e instrumental no meu Mp4 Philips e já sem aguentar prego os olhos e, finalmente, vou dormir. Fim do meu dia.

‘Dois Rios’, de Tatiana Salem Levy

por isso que eu não deixo de ler, em especial, a literatura brasileira. com orgulho, ultimamente só venho lendo grandes romances de autores premiados. estou ficando até frustrado e crítico demais na hora de escrever… então, expondo meu orgulho li, semana passada, ‘o diário da queda’, de michel laub e, para acalmar as coisas, porque quem leu sabe o quanto o livro é forte, peguei tatiana sale levy. ‘dois rios’, segundo romance da tatiana, é uma leitura calma e ao mesmo tempo cheia de tensões. no livro encontramos belas descrições de paisagens marítimas que nos passa a intensa beleza da narrativa da obra. gente, esse livro mexeu comigo. leia ‘dois rios’ e navegue na sopa de letras da atual literatura brasileira, a nossa literatura.

Tenho complexo de inferioridade

A verdade é que eu tenho complexo de inferioridade. Acho que somente esse mesmo: de inferioridade. Sinto-me menor em tudo e não consigo fazer a metade das tarefas do meu dia dia por me achar assim. Na escola, principalmente na disciplina de Educação Física, não consigo fazer nada. Acho meu corpo feio, minha voz feia e tudo que há mim feio. Claro que não fico lembrando isso toda hora para todos, mas o ‘não’ que eu cuspo quando me pedem para dançar ou fazer a tarefa mais simples que for que eu não faço. Entendo que isso se dá por eu ser tímido, mas não acho que timidez esteja altamente ligada ao fato de ser ou não ser apresentável. Eu mesmo não sou.

Muita coisa perco sendo assim, eu sei. Tenho amigas com o físico bem mais cheinho que o meu, embora elas, na hora de ser simpática e feliz, dão de dez a zero para mim. Pessoas como elas só tem como risco o de saúde mesmo, porque o resto é só diversão. Eu não quero dizer que externamente sou bonito, mas olhando da arquibancada para elas, que tem o corpo obeso e crescido para os lados, vejo pessoas que não pedem que a sociedade lhes aceite, mas sim pessoas que sem nem perguntar já vão logo se inserindo, mesmo ouvindo as vaias e os ‘olha que coisa que feia e isso ainda é feliz’.

Eu fujo de tudo e de todos. Não chego nem a fazer cartinha de solicitação e já corro. Se eu não estiver no meu grupinho, que entre eles faço quase de tudo, eu travo na hora. Jogo cola no assento da cadeira e fico lá horas e horas sem me levantar. Quando é pra eles, eu sei que os comentários botados no post do momento são para que haja uma melhora crítica no meu pocket show oferecido. É, gosto de dramatizar, de gritar e de fazer acrobacia entre eles. Mas só entre eles. Só.

Na hora de observar quando chego, por exemplo, no auditório da escola ou na quadra onde todos se apresentam, eu apenas vou como expectador. Só para olhar e aplaudir se caso me agrade. Digo sempre que poderia ter sido melhor, mas esse ‘melhor’ não me peça para fazer que não sei. Também não sou de vaiar, pois já que eu não faço nem com ou sem maestria não tenho nada para falar ou comentar. O meu ‘poderia ter sido melhor’ quase sempre só é ecoado no meu pensamento. Afinal se digo que poderia ter sido melhor para todos, então eu que tenho que ir lá e fazer. Isso também é relativo, não é? Impossível agradar a todos, meu bem.

Com esse meu complexo de inferioridade, vejo que boa parte dos meus comportamentos são distorcidos e a depreciação que sinto por mim é elevada a décima potência. Queria muito ser diferente, mas nem sempre é questão de escolha. É muito fácil dizer que se deve ser feliz e de tão fácil que é dizer que eu nem mais escuto quem vem com esses papos para o meu lado. A minha condição é não ser feliz, a minha identidade é cheia de rombo e toda distorcida. Infelizmente.

Bonito vai ser muita gente que pessoalmente me conhece ler esse texto e ver que o meu complexo não é de superioridade. É aquela coisa, tudo que faço tem que sair, pelo menos, direito. Quando é pra fazer tem que sair bom, bom mesmo. Mas, por conta da minha timidez, não sai nem bom nem ruim. Nada faço e a única coisa que sei fazer é avaliar os outros, por isso que sou tão crítico e tão chato. De mim não sai nada, pois fujo de mim mesmo nessas horas de milhares de olhinhos que não piscam olhando para mim, se fosse o caso.

Você que me lê e acompanha aqui o blog, tive que escrever isso para mostrar que o meu complexo não é de superioridade e, mesmo sendo tão ousado verbalmente,  sou uma eterna tristeza em pessoa. É só ver nas fotos gente a minha cara de quem já morreu e se esqueceram de enterrar. Sou eu que estou dizendo isso, é João quem escreve, o dono da cara, o aniversariante da festa sem bolo.  Aí pode!

Ok, já deu. Tenho que parar, pois não quero ser melhor que ninguém (complexo de superioridade) e estou sendo verborrágico por demais. Fui. Vou me olhar no espelho. Ou melhor: rachar espelhos.