Um sono consigo

dormir. pregar os olhos. há um mês que não dormia comigo. hoje dormi. peguei no sono. fui calmo comigo. fui devagar. é devagar, é devagar, devagarzinho, e quando vi entrou, coube tudo lá dentro, a divagação. quando vi já dormia. jazia naquela cadeira meu corpo. não caía. estava escorado na parede. dormi sem medo. sem pedro. aproximei num suspiro de açúcar as minhas narinas quando inspirei do meu sono, da minha cesta, da minha falência de minutos, do meu estado de absoluto repouso. nem sempre durmo. já disse? esmurro-me. a cama não me merece. fico na janela. levo para longe o meu olhar e demoro a vista no além. fico na ponta dos pés e quando vejo estou na outra rua, dobro a esquina e vejo os telhados das casas que ouso um dia entrar. não sou sonâmbulo. a porta minha tia tranca. não há confiança em mim. nem um pingo. nem um grão. o mais pequeno. a minha noite é demorada porque eu a sinto. não me forro, não tenho cama, não minto. meu corpo não cabe na lancha, não cabe no aperto, meus pés não alcançam a proa e vivo atento para não passar do meu destino, para sair do oceano, para encontrar numa ilha alguma cabana e passar a noite fazendo sexo selvagem com um nativo bem ativo. remo para fugir da tempestade de instantes que caem como pingos de chuva na minha cara de tacho. um dia ainda me acho. a direção está em minha mãos.

JOÃO GOMES

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Um cutuque em si mesmo

Poderia mentir, mas vou falar a verdade porque a verdade cala. Ou não. É o seguinte, venho me incomodando comigo mesmo nestes dias e por estar contido em mim isso me faz perder a concentração até nas coisas mais bobas que faço. Como, por exemplo, ajudar a minha avó a catar feijão. Por ser uma ajuda simples, catar feijão não tem supervisão. Por não ter, horas depois mastigo, com o macarrão que sempre vira papa, pedras ditas catadas na embalagem do produto. Ensinaram-me semana passada que o antônimo de bem é mal com ‘éle ‘e eu consegui captar direitinho sabendo que nunca mais vou errar. Quem dera isso ajudasse… Mesmo assim, obrigado que ensinou.

Então,  este incomodo que falo e procuro o que falar me deixa muito mal. Claro, o que se poderia esperar de um cutuque em si mesmo? O próprio dedo é ruim e bom mesmomesmo é o do outro.  O nosso a gente sempre tira e o do outro a gente deixa, mesmo sendo aqueles cabeçudos e personalizados, coberto por uma unha lixada. Não estou querendo dizer que não podemos sofrer e se encher da gente. Não, não é isso. Sartre, filósofo existencialista, já disse que ‘o inferno é o outro’. Não discordo. Só acho que no meu caso eu sou o culpado e não é de responsa de ninguém esta minha momentânea frescura.

Bom, e o incômodo fica onde? Se eu fosse usar a analogia do dedo que usei para chegar até aqui , diria que no ânus. Mas sei que com toda metáfora e personificação não cabe dentro dele essa minha inquietude que me rasga com mais exclusividade que um pênis de ferro no poder do Viagra ( por conta da minha inquietude, hoje dei a usar o nome científico da coisa. Terei medo em saber e curiosidade em descobrir  que o cu, além de ânus, tem outro nome digamos correto por ser o científico. Se tiver me avisem!). Então, estou  inquieto e mal. Meu dente deu a doer e Deus continua pregando a brincadeirinha de mal gosto em mim. Ah, mas eu sou uma pessoa boa. Umas quatro vezes dei esmola, que somando se subtrairá  em dois paus da minha economia. Deu tá dado, João, isso não ajuda! Procê ter uma noção, minha bochecha ficou inchadona por dois dias, como seu eu estivesse chupando um pirulito daqueles do cabeção. Inda bem que já estou melhor…

Hoje, 22, dia que concluo essa crônica, meu dente não dói tanto quanto doeu ontem e antes de ontem. Sinto-me bem melhor pela dor que para minha (não sei se nossa) alegria diminuiu. Ah, outra coisa, meu dente não tem mais jeito e, para futuramente não sentir mais dor, vou extraí-lo. Quem dera pudesse tirar sem morrer também esse meu coração inquieto que vive a bater numa desconexa irregularidade… Desculpe-me, mas não queria terminar assim. To parecendo aquelas meninas que leem frases de Tati Bernadi no site pensador e dão ibope a novela rebeldes e todo texto que escreve inicia com um querido diário. A verdadeira e única desculpa para esse desfecho é que hoje estou muito sentimental, satisfeito por ter ouvido toda a tarde Mallu Magalhães e Adriana Calcanhoto e por estar na antologia Granja com um conto que traduz a minha infância  com pintadas de ficção e estando, por tudo isso e um pouco mais, desativado meu lado bad girl. O jeito é esperar melhorar…

JOÃO GOMES.

E dei a pintar as unhas

pintei minhas unhas, ou melhor, pintaram-nas. depois de eu tanto insisti pintaram. insisti mais um pouco e deram outra mão. claro que as pessoas estranharam tal vexame. saí hoje pra passear com minha cachorrinha e o pessoal (os transeuntes) não tirava os olhos da coleira. pouco liguei, é claro, e não escondi de ninguém. poderia, mas não escondi. pra quê esconder? fico feliz (feliz também é relativo) quando passo a ser eu mesmo. quando respiro pelo meus poros. quando como com os meus dentes. quando chupo e opto pelo que eu quero. a felicidade bateu na minha porta e eu abri e deixei-a entrar. minha casa (recém comprada. vai fazer três meses que me casei com um gringo. pedi demissão das lojas americanas e to pensando em trabalhar voluntariamente para a copa. primeiro quero aprender inglês, é claro. ele já tá me ensinando. me enganando que vai me ensinar, não sai do verbo to be. i will survive em meio a isso tudo.) toda bagunçada: a pia invadida de pratos sujos e minhas unhas (brilhando cheia de cutículas não removidas) todas ruídas naquelas horas de ansiedade, naquelas horas que ele diz que vem e não vem. sidney, meus esposo, anda chegando muito tarde, sempre com aquele papo de dormir na casa de uma amiga para não se atrasar na reunião do dia seguinte. pelo menos ele não é bi. e se fosse não sou ciumento. mas e eu como fico? esse tempo de chuva e eu sozinho rebolando na cama com brigite a gritar com os trovões. então hoje, cansado da rotina, mandei pintarem minhas unhas das mãos. as do pé não. sidney gosta de roê-las, com certeza brigaria e mandaria eu passar acetona para facilitar pra ele. não costumo gastar com futilidades, também ando apenas de sapato fechado e não cola mesmo fazer a dos pés. diferente de mim, sidney curte demais havaianas. tem uns dez pares diferentes. usa todas nos finais de semana na nossa casa de praia em noronha. porque é o seguinte: eu gosto de fazer tudo que ele me pede. nunca desobedeço. pintei as unhas pra ficar bonito, bonito pra ele. ele sabe que eu gosto de escrever e pintei também pra teclar com mais feminilidade. é das pontas dos meus dedos que saem aqueles textos. pintei pra escrever coisas românticas sobre nosso casamento que pelo menos até agora está dando certo. não sei se pela ausência dele, mas quase nunca brigamos. pintei as unhas e amanhã vou dá um alisante nos meus cabelos. sidney deixou comigo o cartão dele. pra incomodar a todos e fazer um pouquinho só de inveja, estou riquérrima. rica: r-o-l-a. rica! ♥
JOÃO GOMES

Dói-me ser

como é ruim engolir tudo isso: sêmen e palavras. tava quase agora escrevendo sobre o amor que tá me rasgando e me deixando sem dormir e dei backspace. tudo se apagou. voltou pra outra página. pro quandro anterior de mim mesmo. quem sabe, talvez, o da estabilidade. o do silêncio. to tristinho e apaixonado. eu, uma puta de michê e tudo, apaixonada. estou numa melancolia daquelas e, pra quem não sabe, como escreveu fernanda young: melancolia amolece o pau. nada de punhetas, e como eu mesmo escrevi: autopunhetar-se causa tendinite. é sem fonte, sem pesquisa, mas verdadeiro . mostro depois a vocês os calos nos meus dedos de tanto escrever. falando em escrever, essa minha tristeza está fazendo produzir coisas mais sucintas e limpinhas e com possibilidades de serem faladas em público. estou escrevendo algumas dores do amor romântico. poemas onde eu sou o personagem. como é ruim. péssimo! gosto de fingir, entende? mas agora não dá. chegou a hora de ser o enredo e, só pra lembrar, os poemas da época suja não são tão verdadeiros . onde eu conseguiria tanto pau assim? por favor, né! mas é isso, sou meu próprio personagem. não o invento e por vezes ou outra detesto. como dói-me ser!
JOÃO GOMES

Eu, o amigo do crime

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comecei ‘amar é crime’ ontem no ônibus e terminei hoje (também no ônibus) um mês depois de ter ganhado do marcelino ao responder sobre a natalidade de nelson rodrigues. terminei satisfeito, ri demais com o amigo Jefferson. li alguns dos contos em voz alta. a verdade é que achei o texto muito teatral e por isso delicioso. muitos personagens. minha avó adorou os micros para ler no intervalo da novela. eu não precisa nem falar. Ecilda Freitas riu com todos. ouvir, em toda a leitura, a voz dele, do marcelino freire. incrível como o estilo caracteriza a gente. o ‘amém’ tanto falado por ele na oficina. a forma de contar as coisas. de se preocupar com quem está lendo. e as rimas? e os finais surpreendentes? gostei da experiência de ler um livro de contos com tema central. o amor, no caso deste. o amor figurado em diversas cenas desta vida de loucos, de criminosos. marcelino se agarra no dizer do povo. na língua do povo. ‘porque o que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada’, escreveu bandeira em um de seus versos sobre o recife. ele, o marcelino, vem, como todos devem saber, pra se vingar. vem com a linguagem do povo. aprendi com a leitura de ‘amar é crime’ que: não escrevemos para agradar, mas sim para espantar. verbos completamente distantes, mas no entanto possíveis de serem colocados em ação por quem escreve. por quem escreve de verdade. por quem leva a sério a escrita de um texto literário. como não paro nunca, já estou lendo uma seleta de crônicas do rubem braga. muito, muito bom. coisa boa que é ler e escrever. marcelino recomenda muito. ambos. agarradinhos. 🙂

JOÃO GOMES

Minha cara virou terreno no dia do orgasmo

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Tem preguiçoso que nem uma tocou no dia do orgasmo. Eu não, só tenho, às vezes, preguiça de comer. Não sou preguiçoso, mas também não entremos nos detalhes dos serviços domésticos, please! Ler e escrever me consome muito tempo. Aviso logo, lancharemos metáforas e vamos ter que nos virar com o ovo com casca quebrada e o estoque cheio de macarrão instantâneo. Haverá bocas e brechas e mãos não terá. Nada de morrer na mão, Mr. Man! Como acabam de me falarem na mensagem aqui no FB, estou tirano (e não é o gerúndio sem D: cagano, viveno, dano, chupano, teclano e sonhano). Brink’s que já estou vomitando (e não vomitano) o nosso futuro nessa sopa concreta de orgasmo. (como é? – juro que perguntaria se tivesse lendo. Esfrega a testa!).

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E, sem sal e a contra gosto, começou agosto. Injuriado saí de julho, um tanto feliz pelo dia do orgasmo e guloso por saber que existe uma daquele tamanho. Obrigado, senhor.

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Fui firme e fiz ser completo o meu dia do orgasmo. Fico feliz por te proporcionar aqueles gemidos. Agora me sinto satisfeito. To lendo Adélia Prado, ‘Filandras’, e estou amando. Fantástico o dia de hoje. Saiu quente…

JOÃO GOMES
(o texto não está interligado porque o escrevi, em partes, no meu mural do Facebook.)

As contadas 17h de ilusão por algo incerto

Me dei conta agora do quanto sou dramático. Não é forçar a barra, você sabe que não, não finja. Hoje recebi de ti a resposta que eu tanto queria. Olha, obrigado por dividir comigo a sinceridade e me desejar, assim como desejei a você, uma ‘boa sorte’ para as futuras experiências que vamos encontrar pela frente nessa caminhada adentrada na vulgaridade dos nossos atos escondidos por você, seu (***), ainda continuar no armário. Iniciado ontem e terminado hoje, recebi o ‘não’ verdadeiro que esperava e, por isso, pra eu não ficar pior e muito piega, não ouvirei essa noite nenhuma música romântica e com os texto poéticos, idem. Terminei o livro que lia (Aritmética, de Fernanda Young) e, pra piorar, ou, quem sabe, até me alertar desse viver leviano que não podemos ter, li e associei ao meu Eu de hoje sofrido e abolicionado da senzala negra da tua crueldade ao fingir um afeto. Não importa, isso servirá de inspiração para cobrir com uma pela bem grossa os meus personagens. Como sempre feliz por ter terminado mais um livro… Voltando a dramaticidade: Hoje o choro que forço quando escuto Dolores Duran (‘Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar… ♪) ou Marisa Monte ou Nouvelle Vague não vai descer pelas espinhas nojentas que cobrem a minha cara. Não, hoje não terá choro. Minha paixão por ti será enterrada sem choro no cemitério do nunca mais… Estou sentado num caralho enorme na espera por uma nova morte pra me deixar mais vivo.

JOÃO GOMES

Meu cu não quer teu toque

Depois que se começa o cutuque no FB não se para mais. Isso também é conhecido como a terceira lei de Newton. Se você estudou física deve saber qual é, não quero ser direto e isso aqui não é uma indireta. Por favor, passa alguns dias sem me cutucar. Deixa eu na minha. Ganha-se mais, não acha? Uma amiga (foto), que desistiu do FB por conta disso, terminou nesse estado de cutuque avançado. Cutuque: meu cu não quer teu toque, entendeu? Agora vai lá no FB e me cutuca pra ver. Explodo teu HD.