Tenho complexo de inferioridade

A verdade é que eu tenho complexo de inferioridade. Acho que somente esse mesmo: de inferioridade. Sinto-me menor em tudo e não consigo fazer a metade das tarefas do meu dia dia por me achar assim. Na escola, principalmente na disciplina de Educação Física, não consigo fazer nada. Acho meu corpo feio, minha voz feia e tudo que há mim feio. Claro que não fico lembrando isso toda hora para todos, mas o ‘não’ que eu cuspo quando me pedem para dançar ou fazer a tarefa mais simples que for que eu não faço. Entendo que isso se dá por eu ser tímido, mas não acho que timidez esteja altamente ligada ao fato de ser ou não ser apresentável. Eu mesmo não sou.

Muita coisa perco sendo assim, eu sei. Tenho amigas com o físico bem mais cheinho que o meu, embora elas, na hora de ser simpática e feliz, dão de dez a zero para mim. Pessoas como elas só tem como risco o de saúde mesmo, porque o resto é só diversão. Eu não quero dizer que externamente sou bonito, mas olhando da arquibancada para elas, que tem o corpo obeso e crescido para os lados, vejo pessoas que não pedem que a sociedade lhes aceite, mas sim pessoas que sem nem perguntar já vão logo se inserindo, mesmo ouvindo as vaias e os ‘olha que coisa que feia e isso ainda é feliz’.

Eu fujo de tudo e de todos. Não chego nem a fazer cartinha de solicitação e já corro. Se eu não estiver no meu grupinho, que entre eles faço quase de tudo, eu travo na hora. Jogo cola no assento da cadeira e fico lá horas e horas sem me levantar. Quando é pra eles, eu sei que os comentários botados no post do momento são para que haja uma melhora crítica no meu pocket show oferecido. É, gosto de dramatizar, de gritar e de fazer acrobacia entre eles. Mas só entre eles. Só.

Na hora de observar quando chego, por exemplo, no auditório da escola ou na quadra onde todos se apresentam, eu apenas vou como expectador. Só para olhar e aplaudir se caso me agrade. Digo sempre que poderia ter sido melhor, mas esse ‘melhor’ não me peça para fazer que não sei. Também não sou de vaiar, pois já que eu não faço nem com ou sem maestria não tenho nada para falar ou comentar. O meu ‘poderia ter sido melhor’ quase sempre só é ecoado no meu pensamento. Afinal se digo que poderia ter sido melhor para todos, então eu que tenho que ir lá e fazer. Isso também é relativo, não é? Impossível agradar a todos, meu bem.

Com esse meu complexo de inferioridade, vejo que boa parte dos meus comportamentos são distorcidos e a depreciação que sinto por mim é elevada a décima potência. Queria muito ser diferente, mas nem sempre é questão de escolha. É muito fácil dizer que se deve ser feliz e de tão fácil que é dizer que eu nem mais escuto quem vem com esses papos para o meu lado. A minha condição é não ser feliz, a minha identidade é cheia de rombo e toda distorcida. Infelizmente.

Bonito vai ser muita gente que pessoalmente me conhece ler esse texto e ver que o meu complexo não é de superioridade. É aquela coisa, tudo que faço tem que sair, pelo menos, direito. Quando é pra fazer tem que sair bom, bom mesmo. Mas, por conta da minha timidez, não sai nem bom nem ruim. Nada faço e a única coisa que sei fazer é avaliar os outros, por isso que sou tão crítico e tão chato. De mim não sai nada, pois fujo de mim mesmo nessas horas de milhares de olhinhos que não piscam olhando para mim, se fosse o caso.

Você que me lê e acompanha aqui o blog, tive que escrever isso para mostrar que o meu complexo não é de superioridade e, mesmo sendo tão ousado verbalmente,  sou uma eterna tristeza em pessoa. É só ver nas fotos gente a minha cara de quem já morreu e se esqueceram de enterrar. Sou eu que estou dizendo isso, é João quem escreve, o dono da cara, o aniversariante da festa sem bolo.  Aí pode!

Ok, já deu. Tenho que parar, pois não quero ser melhor que ninguém (complexo de superioridade) e estou sendo verborrágico por demais. Fui. Vou me olhar no espelho. Ou melhor: rachar espelhos.

De ré ninguém chega lá

Se fôssemos imorais, poderíamos dizer que o nosso país (em especial aqui, ele, Brasil) está repleto de doentes. Analfabetos e homossexuais serão os meus dois exemplos para tentarmos chegar ao diagnóstico da ignorância elevada à sexta potência da sociedade atual. Antes de continuar a leitura saiba que isto aqui é apenas um desabafo.

Sou homossexual e tenho um tio analfabeto que reside no mesmo teto que eu. Eu, sendo um dos doentes beirando a morte (isso é uma metáfora, não estou com AIDS) e correndo o risco de ser negada a minha entrada no céu pelas minhas escolhas aqui na terra, e ele, meu tio, sendo outro doente do mesmo hospital com chances ainda de vida e alta já próxima por ter frequentado, quando tinha vontade, o EJA.

Os analfabetos são excluídos por carecerem de discernimento e intelecto; os homossexuais, também conhecidos numa rubrica sociológica por ‘a multidão’, são tidos como doentes por terem tomado como escolha o seu bem estar, acrescentando em suas vidas um ato de satisfação e prazer. Olhando de longe, pois de perto corre-se o risco de se assustar, vemos um erro, como é de se esperar, grande para quem tem consciência e pensa nas dificuldades que o outro passa, sendo, por isso, discutível e de análise demorada por todos os problemas criados pelas pessoas, se é que elas podem serem chamadas assim.

Muitos (amigos da escola, por exemplo) ainda não entenderam a razão de estudar História. Compreenderam que se estuda Matemática para aprender a calcular e Português para se comunicar numa linha de raciocínio igual a de todos. Certo, e História? Pelo Houaiss temos a seguinte definição: “conjunto de conhecimentos relativos ao passado da humanidade e sua evolução”.  Para mim a definição já é o essencial para explicar a razão de estudar História. Estudamos o passado para que a gente tenha um melhor presente, para que não se repita o que aconteceu ontem, hoje. A sociedade atual, não só pelo nome ‘atual’, não é de forma alguma a de 1782. Por vivermos o agora, estamos sempre a frente de nós mesmos e o passado, aquele, por exemplo, da época da escravidão, não dá para voltar, pelo seu comovente e histórico contexto, nos dias de hoje. “Todo Homem tem o direito de ser livre”, este é um dos vários artigos que compõe os Direitos Universais. E quanto tempo foi preciso para se criar estes Direitos? É de se saber que estes mesmos Direitos, como toda lei estabelecida, contêm deveres para que venha funcionar. É exatamente o não cumprimento destes deveres estabelecidos encarecidamente em leis sendo o motivo de tanta bagunça no nosso cenário social. Está virando (ou mesmo já é) uma casa de Mãe Joana.

Explicado o motivo de estudar História, tendo pelo seu estudo a instigação do intelecto e posicionamento atual sabendo que já houve um capítulo antes, podemos continuar meus apontamentos sobre os analfabetos e os homossexuais. Não é de ideia total de esta crônica usar como metáfora o termo “doente” para haver pauta para o assunto, afinal sabemos que tanto os desconhecedores do alfabeto e as pessoas que praticam sexo com pessoas da mesma genitália, são rotuladas, infelizmente, por doentes.

Veja:

Já no carro, voltando para casa:

– Filha, você viu aquele menino agarrado com outro igual a ele lá naquela pracinha? Então, ele é doente, filha.

Ainda:

Fumando um cigarro, ante de voltar para o setor:

– Carlinhos, saiu agora da minha sala um homem que não sabia assinar o próprio nome. Uma vergonha um homem como aquele nos dias de hoje não saber colocar num papel a sua identificação. Fiquei com pena dele e tive até medo pela sua ignorância em pessoa. Também nunca frequentou uma escola…

Os dois exemplos, do homossexual e do analfabeto, explicam e entrega quem é verdadeiramente doente em ambos os casos. Ser homossexual não é doença, é, antes de tudo, determinação e amor a si próprio para praticar aquilo que gosta sem depender da aceitação do outro para ser feliz; ser analfabeto, assim como homossexual, também não é doença. Antes de rotular um deles temos que entender que cabe somente a pessoa ser culto ou ignorante macho ou machucado como alguns que compõem o conjunto. Será que pararam para pensar nas dificuldades que este ser deve ter passado toda a vida para balancear os pesos entre trabalho e educação e entre ser isso mesmo ou fingir ser aquilo? Acho que quem é mais doente, nos dois diálogos-exemplo, são os observadores da doença, que não há, nos alvos atingidos.

Acontece que muita gente que frequentou a escola se acha intelectual por terem o senso, aprendido às vezes até na escola-mundo, se encarregando de chamar de doente/ignorante/disperso todo aquele que não estiver no mesmo patamar de conhecimento que ele (acha que) se encontra ou na mesma sexualidade que ele se enquadra. Todos esses conhecimentos aprendidos lá na escola, nessas horas, deveriam ser usados, para entender melhor a escolha, que só cabe pra quem a tomou, dando conselhos e apoiando para que tenhamos uma sociedade agradável de viver e diferente daquela que as aulas de História, no passado, mostrou como foi. A dica é estar sempre a frente de nós mesmo. Afinal, de ré ninguém chega lá.

JOÃO GOMES
29.10.12