Entrevista ao blog O Barquinho Cultural

1. Conte-nos um pouco da sua vida literária, pois apesar de bem jovem, você já possui livros publicados e projetos realizados, conte-nos um pouco sobre a sua vida e carreira na literatura?

Minha vida literária, de uns tempos pra cá, deu uma subida tanto em questão crítica como receptiva. Apesar do meu estilo literário Dercy de ser eu ainda consigo agradar muita gente. Boa parte dos meus escritos fala, também por amor à anatomia da coisa e pelo tema, de pau.  Diria que o pau é a minha paixão maior. Mas, antes de tudo isso, busco ser criativo no que escrevo e passar, como pede a literatura, emoção no leitor. Acho que é essa emoção e também identificação com o que se está lendo que o leitor retorna e busca outras leituras na mesma fonte, afinal não há nada melhor do que um fuxico, ou reflexão, sobre nós mesmos.  Depois da criação da página de leituras Lugar do Leitor, que é um blog que edito desde março de 2011, idealizei agora em agosto uma editora virtual para publicar minhas inquietações e as ideias dos amigos. Acho que se expor é, para quem escreve, de extrema importância e o retorno do gostei ou não gostei do leitor vindo com uma cítrica crítica é o que lhe faz progredir na arte de emocionar com palavras.

2. O que é a arte literária para você?

Literatura, pra mim, é a arte de emocionar com palavras, é a arte de dar sustos em quem lê ou, no mesmo caminho dado, suavizar, mostrando as sutilezas de um mundo tão chocante e tão difícil de compreender que é o nosso. Porque a vida da gente é muito estreita, muito só naquilo. A literatura faz a gente chegar a outras vidas, descobrir becos mais largos e sair do estado em que estamos. A literatura faz com que a gente transceda, nos faz chegar, quando não no nosso interior, às terras distantes. Isso, todavia, quando é literatura das boas. Quando o texto é ruim a gente não chega nem na esquina. Literatura, pelo menos a minha, é o texto deixado pelo o amado na porta da geladeira, é a emoção em ler aquelas linhas e saber que aquilo foi escrito com o coração, sendo ela a sua voz.

3. Seus autores favoritos são… e Por quê?

Quando falo em literatura brasileira, gosto muito de ler Fernanda Young, Clarice Lispector, Marcelino Freire, Mario Prata, Fabrício Carpinejar, Michel Laub, Rubem Fonseca, André de Leones, Adrienne Myrtes e Luisa Geisler. Ah, gosto desses citados por cada um ter sua própria voz narrativa e a coragem de inovar literariamente sem ter medo. Escritor não deve ter medo. Quando vou falar de poesia, porque todos que citei acima são da prosa, eu fico com Drummond, Millôr Fernandes, Paulo Leminski, Cida Pedrosa e Elisa Lucinda. Mesmo com todo esse meu amor revelado pela poesia, eu curto muito romance policial, desde que Jô não seja o autor. Quando vou para a literatura estrangeira são poucos que aparecem, isso sem querer citar os clássicos, mas sempre dou preferência à literatura brasileira. Ela sim é a minha paixão. Na estrangeira fico com o norte-americano Sidney Sheldon, por já ter lido quase todos os seus romances, e o irlandês John Boyne, autor de O menino do pijama listrado, por curtir a reprojeção da nossa História transformada em ficção.

4. Um livro favorito?

Essa me desculpe, mas vai ser difícil responder. Quase tudo que eu leio eu favorito e, justo por favoritar, busco cada vez mais amar o escritor. Seria chato dizer algo agora e depois, como sempre ocorre, modificar e dizer que não, não é aquele o melhor e não digo isso porque veio outro e entrou na lista. Mas, se fosse pra dizer agora, ficaria com A hora da estrela de Lispector. Digo porque o texto me humanizou demasiadamente e me fez, como escrevi outra vez num microconto, cair sobre mim mesmo. É o equivalente de você perder um dente, porque após da leitura você sai diferente. Muito diferente. Isso se dá muito pela minha preocupação com o social, com o humano. Afinal, também sou um.

5. Um gênero literário… (tipo romance, ficção, histórias reais e etc..)?

Meu gênero preferido, depois da poesia, é o conto. Quando arrisco escrever, fico mais com ele. Acho que toda minha obra deveria se encaixar no lego da prosa, mas insisto na poesia, onde vejo que as peças não se prendem direito. Não entendo isso, mas justo por não entender é que eu continuo. Acho que quando eu entender demais o negócio, eu paro. Paro mesmo. Tenho medo de ficar acadêmico e começar a escrever uma prosa que minha avó, se sua visão lhe deixasse voltar a ler, espera encontrar. Meu negócio é a linguagem, é o risco, é a contemporaneidade e a possibilidade de inaugurar olhares. Quando escrevo literatura, fecho todas as gramáticas. Mas, tanto como escritor e leitor, fico com o conto.

6. Você acredita que incentiva os jovens a se interessarem por literatura, através de seus projetos, ideias, blogs (seu pessoal e o Lugar de Leitor) e seus livros?

Não. A minha jovialidade de nada ajuda, pois uma boa parte dos meus amigos de minha mesma idade não está nem aí para leituras.  Pelo que percebo, se muito, leram em toda a vida um único livro e às vezes nem isso. Claro que por conta da amizade, quando escrevo as minhas crônicas, deixo no mural deles, mas não sei se de fato leem. Quem lê sempre retorna, comentando. Uma coisa que percebo é que, quando eles leem, sempre é texto meu, quando é de outro escritor, porque também edito blogs literários, a resposta que me chega é sempre a desculpa do ‘é muito longo e cansa a vista’. Aceito e não os forço, afinal leitura é sinônimo de necessidade e não obrigação. Mas, em minha opinião, os jovens de hoje não leem porque não encontraram ainda o livro certo, pois, como experiência de leitor, acredito que há uma enorme diferença entre caracteres soltos numa página que chega a cansar, de fato, a vista e vida, aquilo que nos assusta e nos ensina a cada página virada.

7. Deixe um depoimento para os leitores e seguidores do site e também uma frase que te traz inspiração para sua vida…

Consumam, sem nunca se encher, de cultura. Leiam tudo que caírem no colo de vocês, mas prefiram sempre conteúdo que quantidade. Se quiserem se tornar escritores, comecem com o básico, vão com calma, pois o cu ainda é virgem e não é recomendável empurrar e dizer tudo de uma só vez. “Não somos obrigados a publicar mil páginas, milhares de palavras, montanhas de papel. Basta um bom texto, um único e bom texto, com incrível sinceridade,” já diz Raimundo Carrero. Deem sempre a cara à tapa e recebam todo tipo de crítica, pois só cabe a gente escolher o que é válido ou não. Costumo dizer que a única crítica que aceito na minha vida é a literária. E, é claro, falo desde todo já nela: a crítica de arte. De vida deixa pros mais íntimos. Ah, a vida é como ela é e não como gostaríamos que fosse e, bichinho, pode amarrar seu bode que com a minha cabra ninguém fode. As duas me inspira muito, me deixa suado até. E, assim, merda aduba. A gente vai cagando e adubando a vida, e assim chegaremos lá. Minha ousadia é o que mais me completa, é o que me faz querer tomar sempre um novo banho para tentar me limpar. Em vão.

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