Inocência perdida

Às vezes no silêncio da noite me lembro da minha infância, tão distante dos meus atuais dias. São poucas as lembranças. Lembro-me quando tudo para mim era novo. Nada fazia mal, tudo era apenas ali. A ingenuidade dos meus atos quando eu roubava sem saber. A minha deselegância quando eu entregava todo mundo, revelando segredos da última conversa. As minhas escondidas chupadas de picolé. O meu querer brincar sempre com meninas, sem saber que isso, no futuro, ia me distanciar amorosamente delas. A minha falta de papa na língua. O medo de apanhar quando fazia algo errado e, uma vez por outra, admitia. Esforço-me pra ver o meu começo. O meu começo tão inocente que no futuro tão safado ficou. Mas eu sou inocente ainda, sempre vou ser. Apenas perdi a ingenuidade, forçaram-me. Quando passo por um parque lotado eu volto os anos. Às vezes tenho que recordar meu start para não me vê muito próximo de um game over. Não me importo, quero mais uma partida. Revejo os truques que me fizeram chegar até aqui.

Não me importa a chegada. O que me importa é que tenho guardado dentro de mim uma inocência perdida. Antes não sabia que ia morrer, e por não saber, vivia mais. Não tinha nenhuma noção de hora e com vontade, aprendi. Por medo de cair nunca pedalei uma bicicleta, tinha receio de ir muito além e quebrar uma perna ou o nariz. Não classificava os meus medos. O medo do escuro, o medo de levar choque, o medo de morrer, o medo de se cortar e de cair. O medo de ter medo quando se precisava de valência. Como sinto falta dessa inocência… Hoje sei de tudo, ou quase tudo, mas aquela inocência da minha infância eu não tenho mais. Falta-me. Está distante e não consigo mais trazê-la. Quando tenho medo de algo não tenho a quem correr. Minha mãe se perdeu nos dias, minha avó virou lenda, e eu, sozinho fiquei. Perdido num mundo de pessoas sem imaginação, sem infância. Em meio a algumas aventuras perco-me na ingenuidade que a vida me cedeu. E que hoje não tenho mais. Acho complicado me entender. É difícil, a inocência, perco-me.

JOÃO GOMES
14.01.12