Comentários sobre literatura por Jorge Amado

Jorge Amado, escritor baiano.

Decidi há pouco mudar a proposta conteudística do meu blog pessoal. Alguém opinou e decidi não querer falar apenas sobre mim, sobre minhas aventuras vitais e sexuais. Acho que isso cansa o leitor. Pensando assim, decidi criar, aqui no meu blog pessoal, um espaço para compartilhar com os amigos que leem esta página bons comentários sobre literatura.

Trechos de entrevistas, de memórias de escritor ou qualquer texto jornalístico publicado por aí você pode encontrar aqui no meu blog, só é preciso que os mesmos tenham passado antes pelos meus olhos. Por impulso da prática, gosto de ler sublinhando, riscando e comentando. Todos os comentários que você vai encontrar aqui será tudo uma pequena seleção minha, de digitação também, digo isso porque algumas coisas eu corto. Quero mostrar aquilo que mais me impressiona, aquilo que mais me traduz.

Assim como um quarto, que diz muito sobre o seu dono, acho que o que eu leio e as ideias que compartilho dirá também muito sobre mim. É como se fosse o seu olhar para a minha estante de livros que se encontra nesse meu quarto. Então, amigos leitores, é isso. Nesses primeiros comentários, eu selecionei alguns parágrafos de Jorge Amado (não li nada dele ainda) publicados no aniversário de 10 anos do Caderno de Literatura Brasileira, onde dez autores preenchem a luxuosa edição com comentários sobre o processo de escrita e de leituras das grandes vozes da nossa literatura do século passado.

Boa reflexão sobre o tema e até mais.

JORGE AMADO

A gente pensa que essas técnicas de escrever são parecidas. Não são. No caso do romance e do conto, eu digo que são técnicas opostas. Você, para escrever um romance, precisa ter o domínio de um espaço e de um tempo muito mais amplos. No conto acontece o contrário. Para mim é muito mais fácil dominar as grandes extensões do que fazer sínteses, que é o que o conto exige. E por isso que eu me aventurei pouco em outros gêneros. Eu sou mesmo um romancista.

[sobre por que as pessoas têm necessidade de ler romances] Porque elas precisam sair da realidade estreita em que vivem e se lançar numa coisa mais ampla. O romance é uma oportunidade para isso.

Eu nunca tomo notas. Como escrevo sobre aquilo que vivi, aquilo que conheço, uso muito minha memória. Quanto a métodos, sim, eu tento escrever todos os dias quando estou trabalhando num romance. Mas já aconteceu de interromper um livro pra escrever outro.

A gente sabe ou não sabe fazer determinadas coisas. Argumento de cinema eu até cheguei a escrever. Mas telenovela não saberia.

Qualquer adaptação de obra literária é uma violência contra o autor. Eu aceito que meus livros sejam adaptados até porque isso ajuda a difundi-los – as telenovelas tem uma popularidade imensa. Mas é uma violência.

Quando sinto dificuldades, eu interrompo o trabalho, quer dizer, paro de escrever, mas no fundo eu sei que a narrativa continua tentando fluir no meio das dificuldades. Uma hora, a saída aparece e eu então ponho no papel. Todo meu esforço é para que essa dificuldade não transpareça para o leitor. Ele não pode perceber as marcas desse processo. Para o leitor, a narrativa precisa fluir com naturalidade.

Há uma preocupação, claro, com o leitor, mas isso não quer dizer que o leitor predomine, que o escritor deva obrigatoriamente fazer o que ele deseja. O escritor faz da maneira que deve fazer e o leitor é arrastado a segui-lo.

Eu acho que a obrigação do escritor é experimentar, buscar novas formas. O que não quer dizer que as formas anteriores sejam desprezíveis e que devam ser abandonadas. Mas a obrigação do autor é buscar novas formas.

Não é que o escritor brasileiro contemporâneo seja desatento. O fato é que a realidade nacional hoje é bem mais complexa.

A melhor tradução é aquela feita num idioma que você não entende, aquela que você não pode checar.

Para mim é mais fácil a coisa longa, o breve sempre me pareceu mais difícil. Tenho tendência à digressão – não é uma boa tendência – de modo que é sempre mais difícil pra mim a concisão.

A crítica é assim. O que você vai fazer? Você escreve e está sujeito à crítica. Deve reconhecê-la e aceitá-la, o que não quer dizer que você esteja de acordo com ela. Você pode discordar do que a crítica diz, mas deve compreender que os críticos têm o direito de fazer as colocações que bem entenderem. Quer dizer: se eu escrevo, me exponho à crítica; tenho que aceitá-la, sem que isso signifique que eu esteja achando tudo o que ela diz correto. Em resumo, eu aceito a crítica no sentido de que ela se faça, se exerça.

Acompanhar a crítica significa que você dá muita importância à sua obra. Como eu não tenho isso, não leio.

Na juventude você não consegue realizar certas coisas. O humor, por exemplo. Para mim, ele faz parte da maturidade de um escritor. O jovem autor quase sempre não consegue atingir o humor com naturalidade. Ele não tem consciência da importância do humor. O escritor novato é “sério demais”. Eu precisei amadurecer para alcançar o humor. Ele é algo tão refinado que você só o domina quando viveu e compreendeu bem as coisas.

A literatura brasileira continua produzindo a nossa identidade. Mas o impacto de quando você diz as coisas pela primeira vez é naturalmente maior. E também é possível que ainda falte uma distância histórica para a gente compreender melhor o que está acontecendo hoje.

O escritor brasileiro tem que ouvir o Brasil. Às vezes você vê nos jovens autores nacionais uma preocupação em situar suas histórias em lugares até indeterminados. Mas para o leitor estrangeiro o interessante é justamente quando o autor nacional mostra o Brasil: como ele é e como nós somos. Acho que o escritor brasileiro antes de tudo precisa se interessar pelo Brasil. Não que digo que haja exatamente um desinteresse, mas eu percebo uma certa desatenção para com as coisas nacionais.

O problema é que a gente não escreve exatamente porque quer.

Busque a verdade. Isso não quer dizer que você acertará na verdade sempre. Pode até não acertar nunca. Mas não deixe de ir atrás dela. E conte as coisas como elas são. Eu sou um contador de histórias, não sou outra coisa. Eu venho e conto a minha história. Aquilo que eu sei e como sei. Isso é o que importa. Não seja demasiado. Escrever exige muito do escritor e nem assim ele consegue fazer a coisa como desejaria.

 (Caderno de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles)

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