Adrenalina

Imagem

Cresci no meio do medo. Tive sempre alguém pra me dizer que o bicho-papão não existe, mas nunca me deram carinho. Vivi em meio de desavenças, de brigas constantes. O medo se fez bastante presente na minha adolescência. Cresci movido a uma certeza: polícia prende e resolve. Isso não resolvia, ela nunca veio. Com medo de que enfiassem em mim sempre escondi as facas. As mesmas facas que pela manhã eu enfiava no pão, e depois aliviava o corte, com a manteiga. Engolia, não tinha tempo pra comer. Não tinha tempo pra viver, pra ser, pra dormir. Dormia de olhos abertos entorpecido pelo medo, pelo medo de morrer.

Estive sempre no alvo. No entanto eu não era o auge, mas os tiros do revólver se estendiam. Eu gritava um grito seco e fugia em busca de socorro. O psicopata corria atrás de mim e eu me escondia na casa de uma vizinha, pondo em jogo também a sua vida. Ela oferecia sua casa e me tirava da rua deserta. Não via nada de errado naquilo, mas me conhecia. Já dentro eu observava a simplicidade e o conforto, queria morar lá. Queria ter nos meus dias aquele acolhimento, aquele mofo. No meu quarto queria ter aquele chão coberto de papelões, aqueles lençóis brancos do último hospital.

Durmo, tentando esquecer os meus problemas. No sono não sonho, deixo-me ser. Acordo renovado, dando passagem a uma nova fase da minha vida. Percebo que nada se mexe, me encanto. Queria aquele silêncio matinal. Depois do oferecido pão com queijo volto pra casa e continuo a vida que ainda me sucede. Movido pela certeza da morte, ajudo a minha avó a tirar aquelas marcas de sangue das paredes sem tinta. Percebo que agora longa será a jornada, volto a comer meu pão e deixo cair no chão a faca. A faca do faqueiro da minha avó. Ela grita com a perda, não ligo. Retiro-me. Vou ao encontro do sono, recordando a adrenalina que foi pensar naquela fuga. A fuga de mim mesmo em encontro à continuação do que ainda corre.

JOÃO GOMES
14.01.12

É preciso saber viver

 Imagem

novembro: penúltimo mês para acabar toda esta super produção. esse, sem dúvida foi, depois de 2010, um dos anos mais memoráveis até agora para mim, foi um ano poético de conquistas nas artes. decisões que foram tomadas, afastamento de pessoas queridíssimas e tantas outras coisas das quais prefiro nem lembrar. livros que li, músicas que ouvi e lugares que (não) conheci. dedadas que levei e muitas cagadas que cometi na encarecida intenção de adubar minha vidinha de merda para poder aprender e seguir (sem me limpar). incrível, mas em menos de oito semanas acaba o ano (ou a humanidade). é. o que me deixa mais triste não é isso, por fim se não acabar agora em 2012 criarão outra data mesmo. penso demoradamente nos amigos que vou deixar de ver e no ano 2013 já botado no carrinho a caminho do caixa. meu maior medo vai ser não saber vivê-lo. 2013, lindão, te espero de pé! (a foto, clicada em março pela amiga juliane arruda, evidencia isto e o melhor é que eu já esperava mesmo (mentira, nem pensava nisso, na época lia jô e vivia a década de 30)). se eu morrer antes e for pro inferno (jurava que já estava hospedado nele), de acordo com a teoria (testemunhada) da minha também amiga Ana Karolina, uma coisa é certa: fui muito feliz até chegar lá. e mais não digo, vou cagar. tásrindequê? né mole não e não to aqui brincando de rimar. desfecho de fresco esse, meu, pra mim. vontade de chorar. cagando se chora, ué! tá bom, tá bom, vou lá. ♥