Meu futuro não pode ser coisa do passado

Não sei por que, mas acho que, como alguém que já disse em frases, viver é se suicidar aos pouquinhos. Cada dia que passa chegamos mais perto da morte, mas, ao mesmo tempo, gostamos de ter vivido mais um dia de vida. Viver seria perder tempo? Se não estivéssemos aqui onde estaríamos? Limpando e fazendo arrumações no além?  Dúvidas como essas se perduram até o finzinho da nossa existência. É interessante. Sim, por falar em existência, daqui a cem anos ninguém vai saber que nos existimos um dia. É, ainda mais essa. Falta de reconhecimento com as espécies. Por isso que é bom, ao invés de estar se questionando, ir  fazendo História, ir mostrando pras pessoas que você vale algo e que junto dos milhares de pontos que fazem a Via Láctea, você se destaca.

Claro que isso é apenas uma ideia forçada, mas até realista, sim, realista, porque na cabeça de muita gentinha por aí, os miolos funcionam assim.  Em um poema de Leminski, ele diz: “isso de querer ser aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. Ir a diante sempre é bom, mas nesse caminho que se dá até, devemos sempre olhar com os olhos da cara pros passos deixados nessa caminhada angustiante e  imaginária. Andamos o suficiente pra causar calos e unhas encravadas nos nossos pés e o que ganhamos quando chegamos lá: um pequeno kit cutícula. Isso quando muito, muitas vezes o “lá” nem sequer existe.  Por isso que venho desde sempre providenciando o meu “lá”, para quando eu chegar nele ele exista pra mim.

Imagina só, a pessoa estudar a vida toda pra depois não ter um emprego que valha pelo suor mostrado tanto na cara. Não ter uma profissão decente que venha fazer valer a pena  as noites mal dormidas fazendo trabalho escolar à mão em papel pautado…  Trabalhar no comércio é difícil, varrer rua é difícil. Pra se sair bem nisso tem que vender bastante e tem que esperar que os cidadãos sujem pra se limpar depois. Logo eu que não tenho paciência pra varrer uma casa e nem tão pouco pra tentar vender uma rifa pra ajudar na festinha de despedida da professora de espanhol… Vida de negro é difícil. Quero a alforria e torço para que meu futuro não já seja, como disse a poetisa Maria Rezende num de seus poemas, coisa do passado.

JOÃO GOMES
22.06.12

Anúncios