O São João se modernizando e eu em casa

O que significa pra mim a comemoração do São João? Fogueira, fogos e as comidas típicas que eu não gosto muito. Essa festinha, tão mais charmosa e calma que o Carnaval, não tem espaço no meu ano. Acho muito sem graça dançar quadrilha, ouvir forró e comer milho assado. Reconheço que a comemoração proporciona muita alegria pra quem brinca. Mas eu prefiro ficar de longe, pois tenho medo de cair dentro da fogueira. Que descupinha fajuta, hein? Concordo. Não sou demente a ponto de cair numa, mas vai que alguém me empurra. Outra desculpa!

Parece ao meu ver que as pessoas que brincam São João são mais serenas. No Carnaval, por exemplo, fica aquele clima pesado no ar e aquele medo assustador de pular sem ser assaltado na folia. São João é diferente. Tudo mais calmo, tirando o medo de perder uma parte do corpo ao estourar uma bomba. Começa com as quadrilhas, com todo mundo fantasiado, com a cara com pintinhas e bigode improvisado feito com o lápis de olho da irmã. As pessoas brincam em acreditar nas simpatias, se deliciam com as iguarias e inalam bastante fumaça. Não faz mal, só uma vez no ano mesmo. As pessoas começam cedo a fechar a rua para acender suas fogueiras. Tem que começar cedo pra conseguir, pois caso contrário vai passar algum engraçadinho lembrando: “se não acender, o senhor vai morrer, seu Bil”.

A comemoração, por ser tão antiga, vem se modernizando. Não sei se no Brasil todo, mas pelo menos aqui em Recife eu vi pessoas comemorarem a tradição dentro do espaço físico de um Shopping Center. Todos num grande espaço –  onde já vi colchões e pequenas exposições, para ser mais exato, é no mesmo local onde  fica a gigantesca árvore de natal – dançando ao som acústico de um forró contemporâneo. Explicando melhor o acontecido, na ocasião tinham mais crianças do que adulto. Todas no centro – sem fogueira, é claro – dançando timidamente para os pais que viam de longe segurando câmeras nas mãos, mostrando um enorme sorriso de satisfação na cara.

Da mesma forma que não tenho nenhum comentário do contra para quem comemora da maneira mais normal o São João, também não tenho nada a falar para essas pobres crianças iludidas pelos pais. Pena que elas não vão sentir o cheiro da fumaça que queima em cada esquina e não vão ter um céu repleto de balões, bombas e estrelas pra olhar . Pelo o que me lembro, não sou muito de ir ao Shopping, o teto era de vidro e o chão mais brilhante que uma careca. É, pelo menos elas vão ter algo pra olhar. É o São João se modernizando e eu em casa.

JOÃO GOMES
24.06.12
(02:14)

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Lendo Drummond nesse São João

Posso dizer que eu não aproveitei e nem vivi o dia de hoje. Acordei eram 17:00 hrs e inventei de fazer a gravação de algum poema de Drummond. Mexendo na minha bagunça de textos soltos e livros com capa rasgada, achei A morte do leiteiro, poema drummondiano que gosto muito. Gravei bem calmo ao som dos fogos. Não posso reclamar deles, pois, afinal, nessa minha gravação eles serviram como trilha sonora para complementar a ideia do poema. Veja de que falo ouvindo: