Adrenalina

Imagem

Cresci no meio do medo. Tive sempre alguém pra me dizer que o bicho-papão não existe, mas nunca me deram carinho. Vivi em meio de desavenças, de brigas constantes. O medo se fez bastante presente na minha adolescência. Cresci movido a uma certeza: polícia prende e resolve. Isso não resolvia, ela nunca veio. Com medo de que enfiassem em mim sempre escondi as facas. As mesmas facas que pela manhã eu enfiava no pão, e depois aliviava o corte, com a manteiga. Engolia, não tinha tempo pra comer. Não tinha tempo pra viver, pra ser, pra dormir. Dormia de olhos abertos entorpecido pelo medo, pelo medo de morrer.

Estive sempre no alvo. No entanto eu não era o auge, mas os tiros do revólver se estendiam. Eu gritava um grito seco e fugia em busca de socorro. O psicopata corria atrás de mim e eu me escondia na casa de uma vizinha, pondo em jogo também a sua vida. Ela oferecia sua casa e me tirava da rua deserta. Não via nada de errado naquilo, mas me conhecia. Já dentro eu observava a simplicidade e o conforto, queria morar lá. Queria ter nos meus dias aquele acolhimento, aquele mofo. No meu quarto queria ter aquele chão coberto de papelões, aqueles lençóis brancos do último hospital.

Durmo, tentando esquecer os meus problemas. No sono não sonho, deixo-me ser. Acordo renovado, dando passagem a uma nova fase da minha vida. Percebo que nada se mexe, me encanto. Queria aquele silêncio matinal. Depois do oferecido pão com queijo volto pra casa e continuo a vida que ainda me sucede. Movido pela certeza da morte, ajudo a minha avó a tirar aquelas marcas de sangue das paredes sem tinta. Percebo que agora longa será a jornada, volto a comer meu pão e deixo cair no chão a faca. A faca do faqueiro da minha avó. Ela grita com a perda, não ligo. Retiro-me. Vou ao encontro do sono, recordando a adrenalina que foi pensar naquela fuga. A fuga de mim mesmo em encontro à continuação do que ainda corre.

JOÃO GOMES
14.01.12