Um sono consigo

dormir. pregar os olhos. há um mês que não dormia comigo. hoje dormi. peguei no sono. fui calmo comigo. fui devagar. é devagar, é devagar, devagarzinho, e quando vi entrou, coube tudo lá dentro, a divagação. quando vi já dormia. jazia naquela cadeira meu corpo. não caía. estava escorado na parede. dormi sem medo. sem pedro. aproximei num suspiro de açúcar as minhas narinas quando inspirei do meu sono, da minha cesta, da minha falência de minutos, do meu estado de absoluto repouso. nem sempre durmo. já disse? esmurro-me. a cama não me merece. fico na janela. levo para longe o meu olhar e demoro a vista no além. fico na ponta dos pés e quando vejo estou na outra rua, dobro a esquina e vejo os telhados das casas que ouso um dia entrar. não sou sonâmbulo. a porta minha tia tranca. não há confiança em mim. nem um pingo. nem um grão. o mais pequeno. a minha noite é demorada porque eu a sinto. não me forro, não tenho cama, não minto. meu corpo não cabe na lancha, não cabe no aperto, meus pés não alcançam a proa e vivo atento para não passar do meu destino, para sair do oceano, para encontrar numa ilha alguma cabana e passar a noite fazendo sexo selvagem com um nativo bem ativo. remo para fugir da tempestade de instantes que caem como pingos de chuva na minha cara de tacho. um dia ainda me acho. a direção está em minha mãos.

JOÃO GOMES